Cuento- Coração de marinheiro - Regina Chaudhry - Revista Virtual De Cultura Iberoamericana - ISSN 1540-286X
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Coração de marinheiro

Regina Chaudhry

Naquele dia a mãe lhe disse que tinha nascido com alma de homem. Ela riu, porque queria muito conhecer o mundo. Crescera assim. E seu riso era mais de amargura que de graça dos comentários da mae. Se tivesse nascido homem já estaria solta pelo mundo há mundo tempo. Não ficaria naquela situação, esperando marido para melhorar de vida, como as irmãs todas fizeram; ou acabar solteirona, balconista de loja e tia dos sobrinhos das irmãs. Se tivesse nascido homem estaria solta nesse mundão de Deus, seria marinheiro, com um amante em cada porto. Escolheria, não ficaria sentada na calçada à noitinha com a mãe, cumprimentando os vizinhos e esperando um homem honesto que a escolhesse para esposa.
__“Se eu fosse homem teria me largado no mundo como fez o pai”.
Naquele dia também recebeu a primera bofetada da mãe depois de adulta. Tinha mencionado o pai de raiva mas não se arrependia. Ele fora-se embora por causa da mãe, da filha, das responsabilidades, da pobreza, da monotonia de uma vida que era a mesma, todo santo dia tudo miseravelmente igual. Não aguentou aquilo e se foi. Ela ficou olhando do portão. Tinha 12 anos. Só conseguiu chorar mesmo por dentro. Amava o pai. Dele só ficaram o jornal que tinha lido na véspera e alguns gatos pelo quintal. Até o cheiro doce da cachaça se fora. A manhete do Correio da Tarde que o pai deixara falava de uma obra grande para os lados de Goiás. O governo queria mudar a capital para lá. Ficou feliz. Quem sabe ele não estava indo para lá também? E depois ele mandava chamar a família. O jornal dizia que precisavam de trabalhadores. Quis correr atrás do pai. Voltou rápido ao portão de madeira, mas ele já tinha sumido. O dia começava a clarear. Eram cinco e meia da manhã. Os porteiros, domésticas e operários que trabalhavam no Centro e na Zona Sul começavam a descer a rua de barro para pegar o ônibus. Nenhum deles ia para Brasília.
Quando não viu mais a figura do pai ela entrou em casa e encontrou a mãe no quartinho dos fundos. Ela pedalava a máquina de costura numa fúria velada. Ao seu lado uma trouxa de peças prontas. Não falava nem chorava. Lágrimas não rolavam fácil naquela família. Daquele dia em diante a mãe nunca mais mencionara o nome dele. Onze anos mais tarde as memórias se embaralhavam na mente da filha e as vezes até pensava que o pai tinha morrido e não que tinha largado a família. Mas tinha. As irmãs casadas sentiam vergonha dele; falavam mal do pai quando a mãe não estava por perto. E no que que deu? Acabaram todas elas largadas pelos maridos do mesmo jeito. Ela não tinha vergonha do pai. Tinha saudade, isso sim. E uma outra coisa estranha: orgulho. Ele quis ser feliz, ali não era. “Tinha direito a procurar ser feliz, não tinha?”
Naquela manhã em que levou o tabefe da mãe também chorou. Não pela dor. Chorou pela sua sorte. O tapa deixou uma marca no rosto. A mãe sabia bater. Mão calejada de migrante nordestina. Não se preocupou com o vermelho na face esquerda. Não era bonita. Nao tinha vaidades. Não tinha pretensões de ser o que não era, como faziam as outras caixas do supermercado. Era pobre, era minguada, não tinha estudo. Enxugou as lágrimas, que foram só duas. Não tinha jeito para chorar aguaceiro. Não estava acostumada. Pegou a bolsa tiracolo e foi trabalhar.
No ônibus olhou a cara da marmita. “Tomara que não azede que nem a de ontém”. Se o almoço azedasse passaria o dia com fome. Não tinha dinheiro para fazer lanche, nem cara de pau para catar uma lata de salchisa e comer escondida na despensa como via as colegas fazerem. Da janela do ônibus viu chegando a praia do Flamengo. Desceria dois pontos depois.
Seu turno era das oito às dezoito. Trabalhou como trabalhava todos os dias. Era boa de contas. Não errava nunca. Se distraía ouvindo as moças falarem sobre as novelas de rádio, as revistas de fanclube que liam. Só que sua mente na maior parte do tempo ficava vagando pelo espaço, procurando por outro lugar, por outras coisas que ela não sabia explicar, mas sentia que precisava delas como de ar para respirar. Naquela noite, quando bateu o cartão de ponto, não teve vontade de ir para casa. Queria conhecer o mundo. E começou a andar, sem direção certa. Era inverno, inverno de Rio de Janeiro, uma brisa e algumas estrelas sem brilho lhe faziam companhia. Quando se deu conta, estava no Centro, na Rio Branco, do outro lado do Municipal. Só parou por causa do barulho. Foi quando percebeu a aglomeração de gente nas escadarias do teatro. Parecia que alguém discursava. Atravessou a avenida e foi ver o que era. Talvez visse algum artista famoso, quem sabe. Nunca nada parecido lhe tinha acontecido na vida. Já começava a sentir um gostinho de mundo. As mãos tremiam, a boca, seca. Cruzou os braços sobre o peito para calar o coração que pulava aos berros e tentar ouvir o que diziam. Muita gente no alto da escada falava ao mesmo tempo. Falavam de greve, de salários, de trabalhadores. A multidão gritava que concordava. Que era isso mesmo. E batiam muitas palmas. Do seu lado um rapaz alto, muito moreno, distribuia panfletos. Tinha as duas mãos abarrotadas de papéis mimeografados. Quando chegou sua vez, ela nem teve tempo de ler o que estava escrito, porque o rapaz alto não aguentou mais com o peso e dividiu os panfletos aos montes a quem estava mais perto.
__“Vamos lá, companheira, você também companheiro, vai passando os panfletos pra frente. Quem é povo tem obrigação de educar o povo. A gente tem que fazer greve. O panfleto explica tudo”.
Nunca tinha sido chamada de companheira. Na verdade nunca tinha sido chamada de nada. E aquela palavra, “companheira”, lhe soava bem. Gostou daquilo. Perdeu a noção do tempo; passou horas distribuindo os papéis. Os protestantes foram se dispersando aos poucos, o centro da cidade ia ficando deserto. Nas escadarias do Municipal sobraram ela, o rapaz alto e um senhor de óculos, o que mais discursara.
O dos óculos recolheu os ultimos papéis, olhou para os dois jovens com um ar sério e agradecido e disse que precisava ir embora. Sua mulher estava esperando com a janta e se preocupava quando ele se atrasava. Morria de medo que o marido acabasse preso por causa do sindicato. Sobraram o rapaz e a moca. Ele se sentou na escada. Ela ficou na dúvida se fazia o mesmo. Por fim ficou em pé, a alguns passos dele.
__“Você também trabalha na fábrica? Nunca te vi por lá”.
__“Não, eu trabalho no Flamengo, num supermercado”.
__“Como é que você soube do protesto?”
__“Vim andando, ouvi e parei”.
O rapaz sorriu. Era proletária como ele.
Das escadas do Municipal mudaram para um lanchonete onde dividiram um sanduíche. Ele falava muito sobre vida, guerra, repressão, protesto, e de palavras que ela não entendia. Falava também sobre amor, igualdade entre os homens, e entre os homens e as mulheres. Ela escutava calada, saboreava cada sílaba. Da lanchonete, mudaram para um barraco na Mangueira. Coversaram mais, por muitas horas. Ela também começava a falar, discutir, perguntar. Queria saber tudo. Tinha fome de conhecimento. Era tarde e ele perguntou se ela queria passar a noite ali. O sofá se arranjava. Ela não teve medo. Disse-lhe que ficava. Não tinha porque voltar para a casa da mãe. Ele sorriu. Também não queria ficar só.
Não se tocaram, mas na manhã seguinte, enquanto coava um café ele perguntou se ela queria morar ali. O aluguel era barato, mas ele não tinha condições de pagar sozinho. O rapaz com quem ele dividia o lugar tinha ido embora. Ele disse que a respeitaria. Ela se pegou desapontada com a última frase mas resolveu ficar.
Em seu horário de almoço colocou no correio uma carta para a mãe que as irmãs leriam. A mãe era analfabeta. Na carta não explicou muito. Não havia o que. Resposta, nunca houve. Talvez no fundo até lhe entendessem. Pobre tem uma sabedoria intuitiva para entender que felicidade é coisa efêmera. Do tipo pegar ou largar. Ela não tinha o que perder e pegou. O mundo se colocava a sua frente como uma viagem de trem sem destino. Para ela não importava o destino final, ou as paradas eventuais. Ela só queria desperadamente a chance de ir a algum lugar.
Duas semanas depois ele não voltou ao barraco. Na fábrica onde trabalhava ninguém sabia seu paradeiro. Ela ficou angustiada, estava perdida mais uma vez em sua miséria. Num sábado a polícia militar apareceu no barraco. Revistou, mexeu nos livros que ele relia todas as noites. Chamou-os de porcaria subversiva. Perguntaram se ela era mulher dele. Ela disse que sim. Aquilo foi a única coisa que lhe veio a mente dizer. Ela perguntou se ele estava preso. O soldado da PM olhou para ela com ar de dúvida. Ela repetiu a pergunta, queria saber onde ele estava. Então o tenente disse aos subordinados que ela não sabia de coisa alguma. Que era uma pobre-coitada, e foram embora levando os livros.
Ela estava outra vez só. Não pensou nele ou no que lhe poderia ter acontecido. Só pensava em si. Não estava realmente triste. Alguma coisa em sua vida tinha acontecido e o resto, o futuro, bem, o futuro se arranjaria.
Por volta do meio dia saiu andando sem rumo pela cidade. Caminhou até a esquina da Presidente Vargas com a Rio Branco. Queria entrar na Igreja da Candelária e sentar um pouco. As pernas lhe doíam o trajeto. Na porta tirou da bolsa uma moeda para dar ao mendigo. Ele levantou a cabeça para agradecer. Ela ficou parada com os olhos fixos no homem e a mão levantada a meio caminho. Ele estava sujo, estava velho, tinha uma das pernas enrolada numa atadura fétida e acariciava um gatinho preto. Tinha ao seu lado, mal embrulhada num pedaço do Correio da Manhã, uma garrafa vazia de cachaça. Era o pai que se tinha ido embora. Ele não a reconheceu. Ela permaneceu parada olhando para o rosto do sujeito que começava a se sentir incomodado com tanta atenção. Até que ele finalmente perguntou:
__ “Posso lhe ajudar em alguma coisa?”
__ “O senhor é feliz?”
O velho riu e disse que não tinha entendido a pergunta. Ela insistiu:
__ “O senhor ao menos foi feliz?”
__ “Moça, me deixe me paz e vá cuidar da sua própria vida!” __ berrou ele, enquanto puxava mais para perto de si o gato que lhe servia de companhia.
__”Eu tô tentando...”__ e saiu de cabeça baixa. No caminho de volta à rua ninguém quis saber das suas lágrimas. Eram muitas, e lhe lavavam a alma. À pouca distância dali, no cais do porto, chegava o som arrogante de um apito de navio. Os olhos do pai se embaçaram. Parecia que o apito zombava de ambos.

 

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ISSN 1540-286X
Última actualización: Octubre de 2003